Sonhando Projetos de Agricultura Urbana

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O Círculo de Sonhos é uma das técnicas essenciais do Dragon Dreaming. É o processo pelo qual o projeto de um indivíduo torna-se o projeto de um Time de Sonhos, de forma tal que todos ganham.

Trabalhar em um projeto que foi iniciado por alguém sempre gera menos motivação pessoal do que trabalhar em um projeto conjunto de propriedade de um grupo. Todos os projetos sempre começam como o sonho de um único indivíduo. Porém, com demasiada frequência, o sonho não é compartilhado. E ainda, como Carl Gustav Jung e os aborígines australianos sabiam, nós raramente perguntamos: “de onde é que esses sonhos vêm?”. A incapacidade de compartilhar nossos sonhos de forma adequada é a razão pela qual 90% de todos os projetos são bloqueados na fase do Sonho. É mais fácil trabalhar no “nosso projeto” do que trabalhar no “seu projeto”. Mas todo projeto começa como uma ideia de uma pessoa. Como pode ser resolvido esse aparente paradoxo?

Iniciando um Círculo dos Sonhos

Ao iniciar um Círculo dos Sonhos, o  iniciador, facilitador ou organizador (o ‘agente de mudança’) de qualquer projeto futuro necessita declarar a razão do grupo ter se reunido. É importante que o grupo crie uma sensação de transparência honesta, e para equalizar as relações de poder entre todos os membros.

Comunicação Carismática

Ao explicar as razões para o grupo estar reunido evitem usar palavras que ‘coloquem para baixo’, como, por exemplo, eu ‘apenas’, eu ‘estou tentando’ etc. Estas palavras minimizam a importância da tarefa que você está realizando. Nós tendemos a usá-las como uma tentativa de minimizar o ‘fracasso’. Como um ativista comunitário eficaz e empoderado, você quer ‘fazer uma diferença real’. Sem falsa modéstia!

Renúncia

Tendo clara a natureza do projeto e a razão pela qual o grupo está reunido, é importante para o indivíduo que chamou o grupo renunciar como líder exclusivo do projeto. Este é o centro do paradoxo. Por que renunciar? Ninguém jamais fez um projeto inteiramente sozinho. Como se costuma dizer “Um sucesso tem muitos pais, apenas os fracassos são órfãos”. Para o projeto se realizar será necessário o trabalho e empenho de muitos outros. A partir do momento que os outros veem uma pessoa como o ‘líder’, postergarão suas próprias autoridades, assumirão que essa pessoa tem todas as respostas, ou se sentirão em uma posição de inferioridade. Isso impede a expressão da inteligência coletiva e a sabedoria do grupo em encontrar sua verdadeira expressão.

Conduzindo o Círculo

Na condução de um Círculo de Criação será feita a construção de uma visão conjunta para o projeto. É importante nesta fase mostrar o projeto da forma mais inclusiva, pessoal e inspiradora possível. É bom usar um ‘Bastão da Fala’ (talking stick) para evitar que a pessoa ‘mais rápida’ ou mais dominante se sobreponha em relação àqueles que levam mais tempo pensando.

O Círculo de Sonhos começa rodando uma vez a palavra no círculo, dando a todos a oportunidade de partilhar as suas ideias. Se alguém não tem nada a dizer, pode passar a vez. Quando tiver terminado a rodada inicial provavelmente serão necessárias mais uma ou duas rodadas. A ideia de uma pessoa pode estimular novos pensamentos dos outros da equipe.

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Escuta Profunda

É extremamente importante que ninguém possa negar, refutar, ou discordar do que alguém disse. Não há ninguém que entenda o ponto de vista pessoal melhor do que a pessoa que está compartilhando. Só esta pessoa é especialista em ser ela mesma e em compreender as suas singularidades pessoais. A única interrupção permitida é quando alguém não entende completamente o que uma pessoa falou e, neste caso, uma questão de esclarecimento pode ser colocada. O facilitador ou redator deste evento precisa escrever a essência do que cada pessoa diz, registrando o nome da pessoa. Isto dará ao orador a oportunidade de verificar se o facilitador/redator efetivamente capturou a essência do que foi dito. Se o orador discordar, é livre para acrescentar, suprimir ou corrigir de alguma forma o que foi escrito para ele.

O Pinakarri ocorre quando todos os indivíduos são totalmente engajados com a sua intenção na outra pessoa, tentando ver e entender através ‘do andar de seus mocassins’ ou ‘ver com os seus olhos’. Os povos aborígines Mandjilidjara Martu do Grande Deserto Arenoso da Austrália Ocidental chamam de ‘Pinakarri’ a este processo de escuta profunda, sendo uma parte importante de sua cultura. É muito diferente da escuta cotidiana à qual estamos acostumados, onde enquanto escutamos com a metade de um ouvido, já estamos preparando internamente a resposta. O Pinakarri exige que seja silenciada a voz individual interna da mente, e a doação de uma empatia profunda, tanto para si mesmo como para o outro. Aqui, muitas vezes a insistência em um período de silêncio de 20 a 30 segundos pode ajudar.

Questões Geradoras

No início de um projeto de sonho e de círculo como este, é uma boa ideia começar usando o que Paulo Freire chama de ‘questão geradora’. Esta é uma pergunta poderosa, aberta, a fim de estimular a discussão. Essa pergunta pode ser, por exemplo, “O que esse projeto precisa ter para que eu me comprometa 100% com ele?” Em outras palavras, “Quais são os meus sonhos que irão se realizar neste projeto, de forma que eu fique profundamente comprometido?”

A diferença entre Círculo dos Sonhos e Tempestade de Ideias

Quando se explica um Círculo Sonho pela primeira vez, muitas pessoas o confundem com sessões de Tempestade de Ideias (brainstorming). Há muito em comum, mas também existem diferenças importantes. Por exemplo, ambos geram listas de ideias para o futuro. Mas a diferença é que, em uma sessão de tempestade de ideias, os mais extrovertidos e falantes, que sonham vivamente, dominam os introvertidos e menos falantes, ou aqueles que são mais práticos e menos teóricos. Desta forma uma sessão de Tempestade de Ideias polariza estes grupos.

Em segundo lugar, na prática de um Círculo de Sonhos existe a preocupação de se enxergar as pessoas, enquanto que a Tempestade de Ideias é focada no quadro ou flip chart.

Criando energia em um Círculo de Sonhos

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Durante um Círculo da Criação, ocorre uma mudança na linguagem utilizada pelos participantes. Os participantes muitas vezes começam dizendo “o que o projeto deve fazer é…”. Mas depois isto muda para “o que vamos fazer é…”. Quando isso acontece, é um sinal de que o processo de criação em círculo está funcionando com sucesso. Há um aumento geral na energia do grupo. Pessoas do círculo parecem ficar mais animadas com a grandeza do projeto incrível que se apresenta. A motivação na sala cresce, bem como o compromisso com o projeto. O projeto está verdadeiramente se tornando um projeto do grupo em vez de ser ‘propriedade’ de um único indivíduo.

  • O Círculo de Sonhos deve ser um documento vivo. Como tal, precisa ser resgatado em transições importantes no projeto, normalmente no limiar entre o Sonhar e o Planejar, ou o Planejamento e o Realizar.
  • Ao entrar uma nova pessoa no projeto, o Círculo de Sonhos deve ser levado e apresentado. Às vezes, é importante que essas pessoas adicionem seus próprios sonhos ao círculo, o que pode inclusive estimular uma nova rodada ou duas entre os outros membros.
  • Leve-o também no momento da Celebração. Ele fornece informações importantes para a reunião final, para sabermos se o projeto cumpriu sua promessa inicial.

“Tudo o que você pode fazer, ou sonha que pode fazer, comece. Ousadia tem gênio, poder e magia. Comece agora”. Goethe

Colocar seus sonhos no papel, através de um Círculo de Sonhos, vai surpreendentemente conduzir ao cumprimento de muitos dos sonhos!

Resumo extraído do site:
http://www.dragondreamingbr.org/portal/index.php/2012-10-25-17-02-40/fichas-tecnicas/99-como-conduzir-um-circulo-de-criacao-de-dragon-dreaming.html
Título original: Fact Sheet Number #10 HOW TO RUN A DRAGON DREAMING CREATION CIRCLE: THE FACILITATOR’S GUIDE
Tradução: Felipe Simas (Outubro de 2011).
Revisão   : Áureo Gaspar (Março de 2012)